Mestre Irineu - Paulo Severino

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Eu conheci o daime em 1944. Eu tive uma febre muito grande, com disenteria. O Coronel Fontenelle era o manda chuva do Acre, mandou o médico lá me examinar e coisa e tal. Aquela febre doida, aquela disenteria não passava, não houve remédio que apartassse. Foi quando ele foi lá em casa, ele mandou juntar os médicos que tinha em Rio Branco, tinha doze médicos aqui no Acre, na cidade de Rio Branco. Ele levou tudinho. Era Júlio Portela e um bocado desses médicos. E me examinaram de todo jeito, e me desenganaram, disseram: “Bom, o senhor tem que ter paciência, esse mal é incurável.” Ele não pode nem mais viajar porque, se botarem ele no navio, ele não alcança a chegada lá. E, se botar no avião, no decolar do avião, ele falece, o jeito é ter paciência até a última hora dele.


Minha mãe ficou chorosa e o papai triste. Logo depois, os médicos saíram mais o Coronel Fontenelle. Chegou a Dona Maria Franco. Ela era a sogra do Mestre Irineu. Ela disse: “Não é bom vocês levarem esse menino lá no Mestre Irineu?” Naquele tempo, meu pai pensava que o daime era uma macumba. Ele resolveu: “Você quer levar meu filho em macumba, então vamos levar.” O daime naquele tempo era o lobisomem do Acre. Tinha poucas famílias, tinha poucos irmãos na irmandade, era pequenininha. Aí de manhã, bem cedinho, tomaram café e foram pra lá. “Eu vim aqui, é para ver o que o senhor pode fazer pelo meu filho”. Mestre Irineu pensou e disse: “Seu Pedro, amanhã eu vou lá pro centro, na passagem eu vejo o seu filho e lhe dou uma solução.” No outro dia, seu Mestre Irineu passou lá em casa. Antes dele sair, ele encheu o copinho dele e tomou daime e foi examinar espiritualmente. Quando ele chegou lá em casa ele disse: “Seu Pedro, para o seu filho voltar a andar e voltar a ser homem novamente só depende de uma coisa: o senhor entregar ele pra eu levar lá pra casa”.


Papai disse: “Ele vai estar à sua vontade”. Ele mandou o Antônio Roldão, que era o cunhado dele, irmão da esposa dele, a dona Raimunda, ir buscar uns homens. Eles vieram e trouxeram um pau, e botaram o pau em uma rede e me levaram. Mestre Irineu ordenou dona Raimunda me dar logo uma colherzinha de daime, e atar a rede no canto da sala. O daime bateu dentro e eu saí do ar, muito fraco, então eu fiz uma bonita viagem. Me vi em um lago grande com umas canoas. Ainda me lembro, como se fosse hoje, a primeira miração da minha vida. Quando foi de tarde, ele chegou. “Raimunda, como é que está o rapaz?” “Ele está aí, tomou o daime e não provocou mais.”


Porque era assim, tudo que batia dentro, eu botava fora , quando não saía por cima, descia por baixo direto. Ele foi, tomou um banho, trocou de roupa, e ele me deu duas colherinhas de chá de daime. Eu tomei, não provoquei mais. Eu voltei a engatinhar como criança dentro de casa. O remédio que ele me deu foi só daime.


Com poucos dias eu estava comendo tudo e andava a casa, eu podia andar engatinhando tudo. Me levantei com as graças de Deus, hoje eu estou contando a história, eu agradeço ao daime. Eu passei um ano e quatro meses sem andar e passei dois meses de tratamento. Eu voltei com os meu pés, eu voltei andando escorado na bengala. Cheguei em casa, levando o daime pra mim tomar e continuei tomando aquele daime. Papai achou que foi um milagre de Deus. Ele convidou a mamãe: “Antônia, vai ter um hinário, vamos? Antônia, eu vou pro hinário.” Lá nós fomos. Papai tomou daime e mamãe também e gostaram. Gostar foi esse que papai e mamãe morreram sendo ayahuasqueiros.