Mestre Irineu - Paulo Serra (filho do Mestre)

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Ele veio para cá seguindo o conselho de seu tio, Paulo, que foi quem criou o Mestre. Esse tio disse que, para ele se tornar um homem de verdade, ele tinha que correr o mundo inteiro, viajar, conhecer as coisas do mundo. E foi o que ele fez.


Mas já era a mão do destino, do caminho dele mesmo... de Deus... por isso ele fez essa viagem até a Amazônia... porque aqui é que ele ia receber o tesouro dele... que é essa doutrina.


Quando ele chegou lá na praça de São Luís, estava aquela multidão de gente se inscrevendo para vir para o Acre. Disseram para ele que no acre ganhava muito dinheiro, como que arrastando com o gambito, como se estava roçando e arrastando com o gambito, ele se interessou por aquilo, lembrou do conselho do tio e veio.


Quando ele chegou em Manaus, ele é sorteado pra vir pra cá, cortar seringa que ele achava bonito, dizia que aqui tava muita coisa e tal. Quando ele chegou em Boca do Acre, no estado do Amazonas, contrataram ele para a Comissão de Limites, aí ele subiu pelo rio Purus e foi subindo para tirar o limite do Acre com o Peru por esse meio mundo.


Ele foi subindo pela serra do Moa, Juruá e de lá ele cortou para o Peru aonde tomou daime pela primeira vez com os Incas. Entendeu, ayahuasca. Aí ele conheceu ayahuasca, lá ele tomou umas duas vezes. De lá ele já cortou para o rumo de Assis Brasil, ele veio descendo até quando chegou em Brasiléia.


Foi quando ele encontrou com André Costa, Zé Costa e Antônio Costa, dois irmãos e um primo. Aí foi quando ele começou a tomar ayahuasca novamente.


Essa diversão Aurora da Vida era da Francisca das Neves. Era a primeira mulher do meu pai, Zé das Neves. Ela tinha muito ciúme do meu pai, era aquela confusão medonha. Quando foi um dia, parece que ela encontrou ele conversando com outra mulher. Aí foi atrás de se vingar. Daí ela foi embora pra Brasiléia. Lá, o espírito dela recebeu esse hino. Aí, o espírito dela veio e cantou pro Mestre, em sonho. Aí ele colocou nas Diversões. Esse hino veio para ele como numa parte da música de uma valsa antiga que tem, entendeu? Não foi praticamente assim, como se recebe um hino dentro do daime. Ele foi recebido dentro do sonho pelo Mestre. O que sei desse hino foi que eu ouvi o velho contando. Esse hino dentro dele, já vem uma história, o sofrimento que ela passou por ter feito o que fez.


Dona Francisca (a segunda mulher do Mestre) tinha problema no joelho, acho que ela trabalhou muito na seringa. Chegou a um ponto que, até pra ela ir ao banheiro, tinha que levantar e botar no vaso. Meu pai conhecia uma seiva de árvore que era usada no reumatismo, o mururé. Ela tomou e tudo, mas não deu aquela sequência. Dizia que a doença já estava avançada, por causa da frieza que ela pegava quando ela cortava seringa dentro d’água.


Quando foi um dia, ela disse: “Irineu, arruma uma pessoa pra tomar conta de ti”. Foi quando minha mãe de criação, Raimunda, veio pra companhia dele. Ela fazia as coisas direitinho. Quando foi um dia, dona Francisca falou pra Irineu casar com ela, ele respondeu: “Como é que eu vou casar com ela com tu dentro de casa?” “ Não se preocupe”.


Foi quando ele casou-se com a minha mãe de criação na Igreja Católica. Ela ficou tomando conta de dona Francisca. Depois de uma ano de casados, foi que ela morreu.


Ele no começo fez uma cruz. Era só uma cruz de um braço. Mas aí quando ele começou a receber os hinos e tudo, diz que ele recebeu a mensagem pra botar dois braços no Cruzeiro. Foi lá na Vila Ivonete. Era logo no começo. Quando ele recebeu, o vovô Antônio Gomes nem vivia ainda aqui, antes de 1939. Diz que ele em um determinado tempo recebeu a mensagem pra botar dois braços no Cruzeiro. Foi quando ele viu a livro da Cruz de Caravaca, que tem a cruz com dois. Foi aí, que ele achou que estava certo, como ele recebeu.


Diziam que o Mestre fazia e acontecia, casava e batizava, pegava as mulheres dos outros e levava para o gabinete dele. Tudo isso foi complicando perante a justiça, tudo aquilo que ele não fazia, até que chegou a ponto da perseguição. Eu era ainda criança, foi na época de 42, 43, eu tinha cinco, seis anos de idade.


O Mestre Irineu contava esta história. Eu cresci ouvindo esta história que ainda hoje se conta. O papai (Zé das Neves) estava no meio dessa enrolada também. Diziam que eles pegaram o Mestre na noite de São Pedro. Nessa noite houve festa. Naquela época o Mestre tomava cachaça (cocal). Pois bem, terminou a festa no amanhecer do dia. A casa dele tinha dois andares, e a gente dormia lá em cima. Uma hora da tarde, a casa dele foi cercada a mando do tenente Costa por quarenta policiais. Pegaram ele e algemaram ele. Nesse tempo, o papai era carvoeiro do Coronel Fontenelle, que era o comandante da Guarda Territorial na época. Aí pegaram ele, trouxeram e meteram ele no xadrez lá do quartel. Aí a mamãe (Cecília Gomes) avisou ao papai (Zé das Neves), aí ele correu e contou para o coronel Fontenele. O Coronel Fontenele foi lá no quartel, mandou cuidar dele muito bem. Mandou tirar ele e botar numa cela especial, com todos os seus direitos. Ele passou a noite lá, mas só que muito bem tratado. O próprio Coronel Fontenele foi atrás de advogado. Quando foi oito horas da manhã do outro dia, houve audiência e dez horas acabou, e ele foi embora para casa.


Em janeiro de 45, ele comprou as estradas de seringa de Horácio Barrigudo. No dia 15 de maio de 45 nós mudamos pra cá (Alto Santo). Quando nós mudamos pra cá, era só colocação. Ele comprou por três contos de réis quatro estradas de seringa. Na época, deveria dar uns quinhentos hectares, ou mais, talvez uns seiscentos hectares. Nessa época ninguém falava hectares, era só estrada de seringa. Papai foi ter com Guiomard dos Santos, na época, ele veio pra cá como interventor, não sei direito se foi dois anos ou foi três depois, que ele passou a Governo. Ele queria um dinheiro pra abrir aqui um roçado. Ele pediu emprestados dezoito contos de réis no Banco do Brasil, pra pagar com seis meses. Tinha prazo pra pagar o empréstimo pra agricultura. Eu sei que quando chegou a época de pagar, ele não tinha o dinheiro. Papai olhou pro lado, olhou pro outro, procurou o Fontenele. Aí o Fontenele foi pro Governo. Aí, vai pra um e vai pra outro. O Fontenele era comandante da Guarda Territorial. Sei que ele foi e procurou Guiomard dos Santos e conversou. Daí, ele deu o dinheiro. Quando foi no verão, ele recebeu um dinheiro e foi devolver para o Guiomard. Aí o Guiomard disse: Irineu, eu não te emprestei esse dinheiro, quem te emprestou foi o banco, eu te ajudei. Eu te dei uma ajuda, agora Irineu só tenho uma coisa pra lhe dizer, banco foi feito pra sentar, banco ele ajuda, mas, se você não chega na hora certa ele toma tudo que você tem”. tanto que papai não quis saber mais de banco.


Quando foi em 52, papai queria fazer um negócio aqui e não dava certo. Ele queria transformar aqui em colônia. Ele soube que já tinham transformado as Placas (bairro de Rio Branco) em colônia. Aí, Guiomard disse: “Irineu, tu coloca o teu pessoal, tu vai derrubando a seringa e vai fazendo o acero do rocado e vai deixando, aí tá bom”. Quando passou uns tempos isso foi em 54, ele disse: “Irineu, eu vou te dar um título provisório pra tua terra. Aí tu manda e desmanda, tu faz o que tu quiser nela.”


Em 59, veio o IBRA que hoje é o INCRA, fez a medição toda da terra e entregou pra ele. O IBRA botava na época gente pra trabalhar na terra. Dava terra pra qualquer um que quisesse trabalhar em colônia. O órgão transformou as estradas de seringa, todinhas, em colônias. O que pertencia a nós, era aqui, onde é hoje o Distrito Industrial até a beira do São Francisco, aquilo ali pertencia a ele.


Os políticos que tomaram daime muito tempo com ele, foi o Guiomard dos Santos e o doutor Valério Magalhães, que por sinal eram muito amigos dele. Ninguém mexia com o papai que eles não deixavam. O Valério Magalhães só tomava daime mais por curiosidade mesmo. Mas, o Guiomard dos Santos tomou porque teve uns problemas de saúde. Ele ficou bom na época que ele veio pra cá. Nessa época o carro nem entrava pra cá. Do quartel, ele montava num cavalo e vinha bater aqui. Quando davam umas 11 horas, ele montava no cavalo e se despedia de Dona Raimunda e ele dizia: “Fique com Deus”. Ele não participava dos bailes. Ele vinha mais é para assistir. Acredito que ele não tinha mesmo o dom da história, mas ele gostava. Ele vinha pra cá, tomava o daime mas não bailava não.


O João Pereira trabalhava pro Antônio Carpina que tinha uma serraria. O João Pereira carregava madeira daqui dessas colônicas e levava pra vender para ele lá. Foi no tempo que ele adoeceu. Foi quando ele veio pra cá pra se tratar de uma tal de alastrim (possivelmente fogo selvagem), cai o couro da pessoa todinho. No começo, parece com uma catapora, se não tratar direito, ela vai comendo, comendo e vai ficando carne viva. Passou dois meses se tratando com o papai. Foi no tempo que ele estava quase bom. Aí chegou o Manoel Belém e diss : “João Pereira vamos lá pra casa passar uns dias." Ele disse: “Quem sabe é o Mestre.” Ele foi e perguntou a papai, papai disse: “Olhe, vá mas olhe a sua dieta!” “Tá bom”. Ele foi pra lá, quando foi com uns três dias o Manoel comprou um pirarucu no leite da castanha e deu pra ele comer. Aí o João Pereira disse: “Não vou comer não, que faz mal.” Aí o Manoel Belém disse: “Pereira, faz mal pra gente o que sai da boca da gente, o que entra não faz mal não, é alimentação.” Ele pegou e comeu com todo gosto. Aí ele foi piorando e teve de ficar na palha da bananeira sem roupa, porque ele não aguentava roupa. Quarenta dias depois ele morreu. O papai até deu uma suspensão no Manuel Belém de seis meses. Esse camarada, com dois meses de suspenso, deu tiro num urubu, matou o urubu e mandou a mulher tratar o urubu, depois ele obrigou ela a comer, mas ele não comeu. Depois de seis meses ele se apresentou e o papai o afastou de vez. O Manuel Belém com raiva pegou água fervente e matou cerca de 100 pés de jagube e uns 200 pés de folha que tinha em seu terreno.


Nunca vi o papai doente. A doença mais grave que eu vi, foi quando ele veio tirar umas pachiúbas mais o Chico Martins, no ano de 54 pra 55. Chico Martins falou pra ele: “Compadre, eu vim porque eu lhe prometi de vir, mas eu tive um sonho tão esquisito essa noite, eu sonhei eu me cortando com o machado.” Ele disse: “Não é nada Chico, às vezes é impressão da gente.” “Eu achava melhor a gente não ir.” “Não rapaz, vamos embora.” Aí eles pegaram o machado e vieram pra cá. Chegando aqui limparam o pé de uma pachiúba, foi quando ele cortou um cipó com o machado. Aí, o machado passou direto e cortou os dedos dele. Cortou os dedos do pé direito, chegando a cortar o nervo. Os dedos dele ficaram tudo caído. O Doutor Armando Leite costurou o pé dele. Ele passou seis meses lendo livros. Ele leu o Livro de Orações Cruz de Caravaca e as revistas do Círculo Esotérico Comunhão dos Pensamento, a Bíblia, o Velho Testamento. Ele disse que aqueles seis meses foi que fizeram ele parar. Ele durante todo esse tempo leu e aprendeu mais alguma coisa.


Ele veio receber o material do Círculo Esotérico Comunhão do Pensamento quando a gente já estava aqui na Colônia Custódio Freire. Agora, era o Daniel Pereira de Matos que trazia pra ele. Um amigo de Daniel era da revista do Círculo Esotérico, aí, repassava para o Daniel que trazia pra ele.


O Germano teve outra mulher, aí ele largou de mão. Ele era meio ranzinza. Diz que um dia ela botou a mão em cima dele, quando ele calçou o sapato sentiu a ferrada no pé e surgiu esse negócio na perna, era um caroço assim que parecia uma verruga. Aquilo ali tinha tempo que rebentava. Sei que depois de uns cinco anos dele ter deixado ela, a ex-esposa, passou a conviver maritalmente com a minha mãe (Cecília Gomes). Ele e minha mãe se juntaram em 1943 a 1964.


Do casamento anterior dele, ele tinha uma filha, Francisca das Chagas. Logo depois ele se tornou viúvo e enterrou a esposa. A filha não gostava de tomar daime. Ela foi pra Porto Velho morar com o marido. O marido tomava cachaça e ela acabou aprendendo com ele. Ela morreu por lá, em Porto Velho, de alcoolismo. Ela morreu antes do marido, sei que logo depois dela, ele se foi também. Os dois faleceram antes do Germano. O Germano faleceu em 28 de junho de 1964.


Quando o Mestre teve um problema, aí ele recebeu o hino 128. Todo mundo chorava, aquela confusão medonha e tal, aí, que ele disse: “Pediram a minha volta e eu voltei e tal.” Pensei, aí, depois, ele recebeu “Terra Fria”. Eu cheguei assim, e disse: “Papai, esse hino não tá indicando que o senhor não vai fazer a sua passagem não?” Ele disse: “Não, não é assim não, se fosse não tava a tempo não!” Eu disse: “Não senhor, não tá não, não papai, se for assim eu vou-me embora.” Ele disse: “Não meu filho, eu ainda vou viver muito. Se Deus permitir, vou buscar dos cem anos.” Aí, eu me tranquilizei, né?


No início do ano de 1971, ele começou a sentir problema de rim, ele tomava remédio de farmácia pra fazer gosto aos outros. Mas o verdadeiro remédio dele era o daime. Aí, quando foi no mês de julho, eu já sentia ele meio cansado. Aí, no dia 05 à noite eu tive lá. Aí eu disse: "Papai, tio Leôncio quer que eu vá com ele no roçado, eu disse que não ia porque ia fechar um motor. O senhor está bem?” Ele disse: “Tô”.


Porque todo dia eu ia lá. Quando eu não ia de manhã, eu ia na boquinha da noite. Todo dia eu tinha aquela obrigação. Eu disse: “Então tá, de manhã cedo eu venho aqui, porque vou fechar o motor do meu carro.” Ele disse: “Tá bom.” Eu disse: “O senhor tá bom?” Ele disse: “Tô.” No outro dia, foi que tio Leôncio me chamou. Eu cheguei, aí, ele não queria ir, mas queria que eu fosse. Aí depois Dona Maria me chamou dizendo que ele tinha feito a partida dele.


Aí, eu fui atrás de tio Leôncio e fui atrás do senhor José das Neves (meu pai biológico). Fui avisar. Antes de ir atrás de José das Neves, fui ao palácio avisar o Dantinha (Wanderley Dantas) que era o Governador. Não queriam deixar eu entrar, que eu estava de bermuda. Aí, eu empurrei um pro lado, outro pra outro. O soldado pegou o meu braço, eu puxei ele pra frente, não sei aonde eu arranjei força. Foi quando eu dei a frente do Dantinha. Aí, ele disse: “Deixa o homem entrar, o homem está em estado de desespero. O que é que está acontecendo, meu filho?” Eu disse: Sua Excelência, eu vim avisar que Raimundo Irineu Serra faleceu.” Ele disse assim: “Já pegaram o caixão dele pra ele?” Eu disse: “Não senhor, foi agorinha, agora, agora, tá com questão de uns dez minutos. Quero que o senhor ponha o anúncio na rádio, veja o que o senhor puder fazer.” Ele disse: “Vou levar o caixão”. Eu disse: “Então leve que eu vou atrás de senhor Leôncio.”


Fui atrás de tio Leôncio no quilômetro 40, da estrada de Porto Acre. Trouxe ele e o deixei aqui. E fui atrás de Zé das Neves. Tudo bem, aí, eu fiquei pensando na minha vida. Se eu soubesse que era assim, não tinha vindo pra cá, mas tava escrito, né? Eu não sabia disso.
O Mestre Irineu falou pra mim e pra minha mãe (Raimunda) onde ele queria ser enterrado. Eu tinha doze anos. Era um lugar que tinha um pé de cumaru ferro de um lado, e que só tava só um toco e um palheiro do outro lado. Ele tava fazendo as covas de milho pra plantar, que ele fazia as covas ali assim, uma cova aqui e outra ali, entendeu? Ele chegou ali, ficou em pé olhando um tempo. Ele disse: “Raimunda e Paulo, quando eu morrer quero ser sepultado aqui. Raimunda, talvez você não esteja mais aqui, mas seu Paulo está.” Eu disse: “Papai, que conversa é essa?”. Ele disse: “É, vai ser aqui. Vai passar a estrada aqui. Eu quero tá aqui, olhando pra quem passa de carro, ou, de pé. Todos vão passar por aqui.” Eu disse: “Que nada papai.” Ele disse: “É meu filho.” Eu disse: “Quando é que vai passar estrada aqui papai?” Não tinha estrada não. Os carros antigamente vinham por dentro do Alberto Torres, até o terreiro dele, mas só vinha mês de julho, agosto, setembro. Aí depois já começava a dar uns pingos de chuva aí já não vinha mais que era uma tabatinga doida.