Mestre Irineu - José Francisco das Neves Júnior

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Foi no dia 26 de maio de 1930 que comecei este trabalho com ele e trabalhamos juntos até o seu falecimento, 41 anos e 41 dias, exatamente.

 

Naquele tempo, não havia farda e esse trabalho foi de concentração. Eram três pessoas. O nosso trabalho começou com uma aula. Ajunta quatro ou cinco meninos, faz uma sala e vai ensinando e vai chegando mais crianças, chegam os ensinos cada dia que passa. O professor vai indicando como é, o aluno vai aprendendo a carta de ABC. Naquele tempo era o começo de tudo. De 1935 a 1940 é que o Mestre vai desenvolvendo e recebendo os valores da Doutrina, os hinos e a música que vem do astral. Nada é inventado. Antes não havia esse trabalho em Rio Branco, era um segredo da mata, o Mestre Irineu abriu o conhecimento para outras pessoas até chegar na situação que está hoje.

 

Mais tarde, na década de quarenta, o Mestre se mudou para a Colônia Custódio Freire, também localizada na zona rural de Rio Branco, que lhe foi doada pelo então governador do Acre, o Sr. Guiomard Santos. Essa colônia foi dividida pelo Mestre Irineu entre os freqüentadores do Centro.

 

Guiomard Santos vinha aqui, passava dias em casa conversando com ele. Uma vez ele chegou e o velho estava no roçado. Aí ele mandou chamar. Disse:

 

- Ora, Irineu, eu venho aqui passar o dia contigo e tu tá no roçado. Acaba com isso. Tu não é para trabalhar assim.

 

O velho respondeu:

 

- Eu tenho que trabalhar, porque eu não tenho quem me dê nada.

 

O Guiomard então disse:

 

- Eu vou te aposentar como veterano da Revolução Acreana, tu queres?

 

Mas ele respondeu:

 

- Não, eu não quero, porque não sei mentir.

 

Ele gostava mesmo era dessa vida.

 

O Mestre Irineu teve muitos alunos, muito mais de mil, mas nem todos se esforçaram para aprender igual. Tem muitos deles que levaram a sério e posso citar uma: Maria Damião foi uma aluna que trabalhou uns tantos anos com o Mestre. Faleceu em 1949, mas aprendeu e recebeu um hinário e por isso será uma pessoa sempre lembrada dentro da Doutrina.

 

Eu tinha a idade de 4 anos quando ele passou por Xapuri, depois ele foi para os seringais em Brasiléia e na Bolívia e ficou muito tempo por lá. Mas ficou em mim este conhecimento gravado, ainda que tivesse tão pouca idade. Em fevereiro de 1930 com 22 anos de idade me transferi para Rio Branco. Eu cheguei em fevereiro e o Mestre Irineu chegou em março. Quando chegou maio ele começou o trabalho dele aqui, nessa época ele já tinha 39 anos.

 

Tinha um cidadão que conhecia ele e trabalhava comigo e me disse que Irineu tinha chegado e coisa e tal. Então a razão é que eu procurava este conhecimento. E nesta razão de conhecimento pude alcançar o trabalho. Ele não me convidou, foi tática minha chegar e tomar o Daime mais ele. Aliás ele nunca convidou ninguém. Eu também nunca convidei ninguém, quem quer vai.

Eu nunca recebi hinos, o meu trabalho é de "Concentração". Eu sou Conselheiro do Alto Santo. Vem uma pessoa com um problema e conforme seu merecer eu dou os conselhos.

 

O Mestre Irineu fazia trabalhos de cura. Ele tinha este poder e uma boa parte das pessoas que se iniciaram na doutrina foi porque lá receberam sua saúde. Agora quem cura é o Daime, mas precisa da força do Mestre.

 

O Mestre Irineu era muito respeitado e foi amigo de políticos influentes que o procuravam em sua casa. Mas tivemos problemas quando inventaram o negócio de "tóxico". Agora se você quer saber se esta bebida é pura e sólida eu vou dizer que estou trabalhando há 50 anos com ela. Aí se me perguntarem: Cidadão, ficou alguma parte tóxica? - Eu digo não. O delegado da Polícia Federal me falou assim: Como é? Pela sua pessoa não pode ser tóxico nunca, o Sr. com esta idade, com este corpo e na sua voz não há manqueira. Então não há razão para ser tóxica.

 

Já está dentro dos 40 anos que eu vivo com minha esposa Ester e nestas partes ela nunca botou dúvida, porque ela também vem tomando Daime nesses anos todos. Agora me diga uma coisa, quantos anos tu achas que ela tem? - Bem, eu calculo uns 68 anos – Tá vendo como são as coisas, está aí uma mulher que dá conta do serviço todo da casa e está boa para tudo. Ela é oito anos mais velha do que eu, portanto já está dentro dos 80 anos. Nossa convivência é muito boa, mas no começo era assim, tá vendo este tamborete? Eu dizia isto aqui é um tamborete. Ela dizia não, é um banco, aí vinha discussão. Até que um dia o Daime me pegou e me mostrou que daquele jeito não dava. Então se chegasse em casa e dissesse que era um banco eu me calava, mas ficava firme com minha verdade e ela com a dela. E o resultado qual foi? Fortaleceu minha palavra e a dela e nós fomos deixando de discutir sem precisão.

 

Se acabar com a mata, com a floresta, pode acabar com a humanidade. Pode acabar com todo ser vivente, porque nós vivemos pela floresta e a floresta por nós. Se terminar com a floresta, então pode terminar com a humanidade que não vale mais nada. Sabe por que? - A floresta nos dá vida e a vida sopra de lá e cobre o mundo.

 

Eu creio que os índios são brasileiros superiores a nós. Eles vêm do solo e nós viemos arranjados de outros lugares, porque quando foi descoberto o Brasil eles já estavam aqui, já falavam com a natureza.